Resolução comentada da prova aplicada em 05/10/2026 — material de estudo

Gabarito — Prova de Física

Leis de Newton e Forças  |  Questões discursivas  |  Física I — Mecânica

Instruções

  1. Toda questão exige desenvolvimento completo. Resposta solta, sem as contas e sem o raciocínio que levou até ela, não recebe a pontuação do item.
  2. O desenvolvimento e a resposta final pontuam separadamente: um desenvolvimento correto que termine em erro de conta ainda vale parte dos pontos, e uma resposta certa sem desenvolvimento, não.
  3. É proibido o uso de calculadora, celular, relógio inteligente ou qualquer outro dispositivo eletrônico. Todas as contas fecham em números simples.
  4. Use caneta esferográfica preta ou azul. Diagramas podem ser feitos a lápis.
  5. Nos itens que pedem representação das forças, nomeie cada vetor (peso, normal, tração, atrito) e desenhe-o aplicado no corpo a que se refere.
  6. A prova tem 7 questões e 20 itens, cada item valendo 0,5, num total de 10,0.
Dados: g = 10 m/s²  ·  sen 37° = 0,6  ·  cos 37° = 0,8  ·  fios e polias ideais  ·  resistência do ar desprezada.

Questão 1 As três leis e o diagrama de forças (1,5)

As três leis de Newton tratam de situações diferentes, e trocá-las de lugar é o erro mais frequente em dinâmica. Responda aos itens a seguir.

a) Enuncie a primeira lei de Newton com suas próprias palavras e descreva uma situação do cotidiano em que ela se manifesta. (0,5)

Um corpo mantém o seu estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme enquanto a força resultante sobre ele for nula.

Cabe perceber o que a lei NÃO diz: ela não diz que corpo parado não tem força agindo, e sim que as forças que agem nele se cancelam. Exemplo aceitável: o passageiro em pé que é lançado para a frente quando o ônibus freia, porque tende a manter a velocidade que já tinha; o ônibus é que desacelera debaixo dele. Vale também o talher que fica na mesa quando se puxa a toalha depressa.

b) Um livro está em repouso sobre uma mesa horizontal. Identifique todas as forças que agem sobre o livro e, para cada uma delas, indique qual é a sua reação, dizendo sobre que corpo essa reação age. (0,5)

Sobre o livro agem duas forças: o peso, vertical e para baixo, que a Terra exerce sobre ele; e a normal, vertical e para cima, que a mesa exerce sobre ele.

forças SOBRE O LIVROas reações, em OUTROS corposmesalivroNPas duas no MESMO corpo: cancelam-semesaN′na mesaTerraP′na Terra
normal (N)peso (P)tracejado = a reação, aplicada no outro corpo

A reação do peso é a força com que o livro atrai a Terra, aplicada na Terra. A reação da normal é a força que o livro exerce sobre a mesa, para baixo, aplicada na mesa.

O erro que esta questão procura: dizer que peso e normal são par ação–reação. Não são, e a figura mostra por quê. As duas do painel da esquerda agem no mesmo corpo, o livro, e por isso podem se cancelar. As de um par agem sempre em corpos diferentes, como mostra o painel da direita, e por isso nunca se cancelam. Peso e normal aqui apenas se equilibram, porque o livro está em repouso.

c) O caixote da figura é empurrado pela força horizontal F e desliza sobre o piso com velocidade constante. Redesenhe o caixote no quadro abaixo, represente todas as forças que agem sobre ele, nomeando cada uma, e escreva a relação entre os módulos dessas forças. (0,5)

Quatro forças: peso (para baixo), normal (para cima), a força aplicada F (no sentido do movimento) e o atrito cinético (contrário ao movimento).

piso com atritocaixoteNPfatFv constanteresultante nula nas duas direções
normal (N)peso (P)atrito (fat)força aplicada (F)

Velocidade constante quer dizer aceleração nula, e aceleração nula quer dizer resultante nula — em cada direção, separadamente:

vertical:   N − P = 0  →  N = P
horizontal:   F − fat = 0  →  fat = F

Vale meio ponto o desenho com as quatro forças nomeadas e aplicadas no bloco, e meio as duas relações. Desconta quem desenha uma força extra "do movimento" para a frente: velocidade não é força.

Questão 2 Segunda lei de Newton (1,5)

Um carrinho de 4 kg desliza sobre um piso horizontal sem atrito. Sobre ele agem as duas forças horizontais mostradas na figura.

a) Determine o módulo e o sentido da força resultante sobre o carrinho. (0,5)

As duas têm a mesma direção e sentidos opostos, então a resultante é a diferença:

FR = F1 − F2
FR = 30 − 10
FR = 20 N, no sentido de F1, para a direita
b) Determine o módulo da aceleração do carrinho. (0,5)
FR = m · a
20 = 4 · a
a = 5 m/s², no mesmo sentido da resultante
c) O carrinho parte do repouso. Determine o módulo da sua velocidade depois de 6 s, supondo que as duas forças continuem agindo. (0,5)

A aceleração é constante, então vale a função da velocidade do MRUV:

v = v0 + a · t
v = 0 + 5 · 6
v = 30 m/s

É o item que liga dinâmica a cinemática: a força dá a aceleração, e a aceleração dá a velocidade. Quem para na aceleração responde 5 e perde o item.

Questão 3 Peso e força normal (1,5)

Um caixote de 20 kg está em repouso sobre um piso horizontal.

a) Determine o módulo do peso do caixote e o módulo da força normal que o piso exerce sobre ele, com o caixote apenas apoiado. (0,5)
P = m · g
P = 20 · 10
P = 200 N

Em repouso e sem nenhuma outra força vertical, a resultante vertical é nula:

N − P = 0  →  N = 200 N
piso20 kgN = 200 NP = 200 Napenas apoiado: N = P
normal (N)peso (P)

Aqui N e P coincidem, e é justamente essa coincidência que cria a confusão cobrada nos itens b e c. Elas são iguais neste caso, não por definição.

b) Uma pessoa passa a empurrar o caixote com a força vertical F de 50 N, de cima para baixo, como mostra a figura. Determine o novo módulo da força normal. (0,5)

O caixote segue em repouso, então a resultante vertical continua nula — só que agora há três forças:

N − P − F = 0
N = P + F
N = 200 + 50
N = 250 N
piso20 kgN = 250 NP = 200 NF = 50 Nempurrado para baixo: N = P + F
normal (N)peso (P)força aplicada (F)

A normal não é igual ao peso. Ela vale o que for preciso para a resultante vertical ser nula, e aqui isso é mais do que o peso. Quem responde 200 N aplicou uma regra decorada em vez de montar a equação.

c) Agora a força de 50 N passa a ser aplicada verticalmente para cima, puxando o caixote. Determine a nova força normal e, em seguida, o menor valor dessa força vertical capaz de fazer o caixote perder o contato com o piso. (0,5)

Com a força de 50 N para cima, ela ajuda a normal a segurar o peso, e a normal diminui:

N + F − P = 0
N = P − F
N = 200 − 50
N = 150 N

O contato se perde no instante em que o piso deixa de empurrar, isto é, quando a normal chega a zero:

N = 0  →  F − P = 0
F = P
F = 200 N
F = 50 N para cimana iminência de descolar20 kgN = 150 NP = 200 NF = 50 N20 kgN = 0P = 200 NF = 200 N
normal (N)peso (P)força aplicada (F)N = 0 é a condição de perder o contato

A condição física é N = 0, e não "F maior que P". Dizer qual é a condição vale tanto quanto achar o número.

Questão 4 Plano inclinado, com e sem atrito (1,5)

Um bloco de 5 kg é abandonado sobre a rampa da figura, que faz 37° com a horizontal. Use sen 37° = 0,6 e cos 37° = 0,8.

a) Considerando a rampa sem atrito, represente no quadro abaixo as forças que agem sobre o bloco, decomponha o peso nas direções paralela e perpendicular à rampa e indique o valor de cada componente. (0,5)

Duas forças agem sobre o bloco: o peso, vertical e para baixo, e a normal, perpendicular à rampa e para fora dela. O peso se decompõe nas direções da rampa:

P = m · g = 5 · 10 = 50 N
Px = P · sen 37° = 50 · 0,6 = 30 N  (descendo a rampa)
Py = P · cos 37° = 50 · 0,8 = 40 N  (contra a rampa)

Não há movimento na direção perpendicular, então a normal equilibra Py:

N = Py = 40 N
37°bloco de 5 kg sobre a rampaP = 50 NPx = 30 NPy = 40 NN = 40 Nsem atrito: só o peso e a normal agem no bloco
peso (P)normal (N)tracejado = componentes do peso, não é força nova

Duas coisas que o desenho precisa mostrar e que valem ponto. A primeira: as componentes são o peso repartido, e não forças novas — por isso aparecem tracejadas, e por isso quem desenha P junto com Px e Py como três forças está contando o peso duas vezes. A segunda: a normal aqui vale 40 N, e não 50 N; ela equilibra apenas a componente perpendicular.

b) Ainda sem atrito, determine o módulo da aceleração com que o bloco desce. (0,5)

Na direção da rampa só resta a componente Px:

Px = m · a
30 = 5 · a
a = 6 m/s²

Equivale a a = g · sen 37° = 10 · 0,6, e cabe perceber que a massa sumiu: na rampa sem atrito, bloco pesado e bloco leve descem com a mesma aceleração.

c) Suponha agora que entre o bloco e a rampa haja atrito, com coeficiente cinético igual a 0,50. Determine o novo módulo da aceleração de descida. (0,5)

A normal continua valendo 40 N, porque nada mudou na direção perpendicular. O atrito sai dela:

fat = μ · N
fat = 0,50 · 40
fat = 20 N, subindo a rampa

Na direção da rampa, o peso desce e o atrito resiste:

Px − fat = m · a
30 − 20 = 5 · a
a = 2 m/s², ainda descendo
37°bloco de 5 kg sobre a rampaP = 50 NPx = 30 NPy = 40 NN = 40 Nfat = 20 No atrito sobe a rampa, contra o movimento
peso (P)normal (N)atrito (fat)tracejado = componentes do peso, não é força nova

O erro mais comum é usar μ · P em vez de μ · N, o que daria 25 N e uma aceleração de 1 m/s². O atrito depende da força com que as superfícies se apertam, que na rampa é só a componente perpendicular.

Questão 5 Blocos sobrepostos: o atrito como motor (1,5)

O bloco B, de 3 kg, está apoiado sobre o bloco A, de 7 kg, como mostra a figura. O bloco A repousa num piso horizontal sem atrito, e entre A e B o coeficiente de atrito estático vale 0,40. A força horizontal F é aplicada ao bloco A, o de baixo, e os dois se movem juntos.

a) Nenhuma força horizontal é aplicada diretamente a B. Explique qual força o põe em movimento e indique o seu sentido. (0,5)

É a força de atrito estático que A exerce sobre B, na superfície de contato entre os dois, no mesmo sentido de F.

piso sem atritoA (7 kg)B (3 kg)Ffatsobre B, para a frentea reação, sobre Aé o atrito que acelera Bnão há nenhuma outra força horizontal sobre eleas duas setas são a MESMA interação, vista dos dois lados
força aplicada (F)atrito (fat)tracejado = a reação, no outro corpo

Ela é a única força horizontal sobre B, e por isso é ela que o acelera. Cabe perceber que o atrito aqui não freia, ele puxa: a intuição trata atrito como obstáculo, e aqui ele é o motor. Pela terceira lei, B exerce sobre A uma força de atrito de mesmo módulo e sentido contrário, que é a seta tracejada da figura.

b) Para F = 20 N, determine o módulo da aceleração do conjunto e o módulo da força de atrito que age sobre B. (0,5)

Uma equação para cada bloco, na horizontal, tomando como positivo o sentido de F. Sobre B age só o atrito; sobre A agem F e a reação do atrito, para trás:

B:   fat = mB · a
A:   F − fat = mA · a

Somando as duas, o atrito some, porque entra com sinais opostos:

F = (mA + mB) · a
20 = 10 · a
a = 2 m/s²

Com a aceleração na mão, volta-se à equação de B para achar o atrito:

fat = mB · a
fat = 3 · 2
fat = 6 N

O atrito é interno ao conjunto: puxa B para a frente e A para trás com o mesmo módulo, e por isso desaparece na soma. É esse cancelamento que permite tratar os dois como um corpo só. Vale ainda conferir se o atrito dá conta: o máximo que o atrito estático oferece é μ · mB · g = 0,40 · 3 · 10 = 12 N, e 6 N está abaixo disso.

c) Determine o maior valor de F para que B seja arrastado junto, sem deslizar sobre A. (0,5)

As mesmas duas equações do item anterior, agora no limite, com o atrito no valor máximo que o contato suporta:

B:   fatmáx = mB · amáx
A:   Fmáx − fatmáx = mA · amáx

O atrito máximo sai do coeficiente e da normal entre A e B, que é o peso de B:

fatmáx = μ · mB · g = 0,40 · 3 · 10 = 12 N
amáx = 12 / 3 = 4 m/s²

Somando as duas equações, o atrito some de novo e sobra a força pedida:

Fmáx = (mA + mB) · amáx
Fmáx = 10 · 4
Fmáx = 40 N

A ordem de ataque é o que esta questão cobra: o limite aparece num corpo (B) e a resposta é sobre o outro (o conjunto). Quem aplica o atrito máximo diretamente ao conjunto chega a 12 N e erra.

Questão 6 Blocos ligados por fio e polia (1,5)

O bloco A, de 4 kg, está sobre uma mesa horizontal e ligado por um fio ideal que passa por uma polia presa à borda da mesa e sustenta o bloco B, de 6 kg, pendurado. O coeficiente de atrito cinético entre A e a mesa vale 0,25. O conjunto é solto do repouso.

a) No quadro abaixo, faça dois desenhos separados e represente todas as forças que agem sobre o bloco A e todas as que agem sobre o bloco B, nomeando cada uma. (0,5)

Sobre A: peso, normal, tração (horizontal, no sentido da polia) e atrito cinético (contrário ao movimento). Sobre B: peso e tração.

bloco A, na mesabloco B, penduradoA 4 kgNPATfatB 6 kgTPBas duas trações têm o mesmo módulo
normal (N)peso (P)tração (T)atrito (fat)

Dois desenhos separados, e não um só com tudo junto: é isso que o item pede e é assim que o problema se resolve. As duas trações têm o mesmo módulo porque o fio e a polia são ideais; a polia muda a direção da força, não o seu valor. Desconta quem desenha o peso de B agindo sobre A, ou a normal no bloco pendurado, que não toca em superfície nenhuma.

b) Determine o módulo da aceleração do conjunto. (0,5)

Antes das equações, o atrito, que sai da normal em A, e essa vale o peso de A porque a mesa é horizontal e nada mais empurra o bloco para baixo:

NA = mA · g = 4 · 10 = 40 N
fat = μ · NA = 0,25 · 40 = 10 N

Agora uma equação por bloco, tomando como positivo o sentido do movimento: A para a polia, B para baixo.

A:   T − fat = mA · a
B:   PB − T = mB · a

Somando as duas, a tração some, porque entra com sinais opostos:

PB − fat = (mA + mB) · a
60 − 10 = 10 · a
a = 5 m/s²

A tração é interna ao conjunto: puxa A para um lado e B para o outro com o mesmo módulo, e desaparece na soma. É esse cancelamento que autoriza tratar os dois blocos como um corpo só de 10 kg, puxado pelo peso de B e freado pelo atrito.

c) Determine o módulo da tração no fio. (0,5)

A tração foi justamente o que a soma eliminou, então para achá-la é preciso voltar a uma das duas equações. A de B é a mais curta:

PB − T = mB · a
60 − T = 6 · 5
T = 30 N

Conferindo pelo outro corpo, que tem de dar a mesma coisa:

T − fat = mA · a
30 − 10 = 4 · 5
20 = 20  ✓

Cabe perceber que a tração não é o peso de B. Se fosse 60 N, a resultante em B seria nula e ele não desceria. A tração é menor justamente porque B está acelerando para baixo.

Questão 7 Elevador (1,0)

Uma pessoa de 50 kg está em pé sobre uma balança, dentro do elevador da figura. A balança indica o módulo da força normal que ela exerce sobre a pessoa.

a) Determine a indicação da balança, em newtons, em três situações: com o elevador subindo em velocidade constante de 3 m/s; com o elevador subindo com aceleração de 2 m/s² dirigida para cima; e com o elevador descendo com aceleração de 2 m/s² dirigida para baixo. (0,5)

A balança indica a força normal que ela exerce sobre a pessoa, e não o peso dela. As duas coincidem só quando a aceleração é nula; é por isso que a leitura muda sem que a massa mude.

P = m · g = 50 · 10 = 500 N  (igual nas três situações)
v constantebalançaN = 500 NP = 500 Na = 0 → N = Psubindo, a = 2 m/s² ↑balançaN = 600 NP = 500 NaN > Pdescendo, a = 2 m/s² ↓balançaN = 400 NP = 500 NaN < P
normal (N)peso (P)aceleraçãoa balança marca a NORMAL, não o peso

Subindo em velocidade constante: aceleração nula, resultante nula.

N − P = 0
N = 500 N

Os 3 m/s não entram em conta nenhuma. Subir, por si, não altera a balança: o que altera é acelerar.

Subindo com aceleração de 2 m/s² para cima: a resultante aponta para cima.

N − P = m · a
N = m · (g + a) = 50 · (10 + 2)
N = 600 N

Descendo com aceleração de 2 m/s² para baixo: a resultante aponta para baixo.

P − N = m · a
N = m · (g − a) = 50 · (10 − 2)
N = 400 N

O que a pessoa chama de "sentir-se mais leve" é a normal menor, e não um peso menor: o peso é m · g nos três casos. É a mesma ideia do item b.

b) Existe alguma situação em que a balança indicaria zero? Descreva-a e justifique com a segunda lei de Newton. (0,5)

Sim: quando a cabine está em queda livre, isto é, com aceleração de 10 m/s² para baixo. Pondo N = 0 na segunda lei:

P − N = m · a
500 − 0 = 50 · a
a = 10 m/s² = g, para baixo

Pessoa e balança caem juntas com a mesma aceleração, de modo que uma não aperta a outra e a normal se anula. É o que se chama imponderabilidade, e é também a razão de astronautas flutuarem em órbita: não é ausência de gravidade, é queda livre permanente.